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Doutora, consegue fazer com que ele/ela pare de roer as unhas?

Com certeza conhecem alguma pessoa que tenha o hábito de roer objetos ou unhas. E estes hábitos não acontecem só em crianças! Pessoas de todas as idades fazem-no e como já tivemos oportunidade de falar muitas vezes, as crianças têm tendência a mimetizar (“imitar”) tudo o que observam.

A onicofagia (mais conhecida por “roer unhas”), é um hábito muitoooo prevalente. A literatura científica estima que entre 20% a 30% da população geral o faz. E na população pediátrica, num estudo mais recente (2018) refere que 38% das crianças o fazem.

Mas porque é que as pessoas/crianças têm este hábito?

Ao longo dos anos, roer objetos ou unhas, têm sido associados a hábitos nervosos e ansiedade. No entanto, alguns estudos têm sugerido também uma associação com o aborrecimento e perfecionismo. Tal como outros hábitos repetitivos, como “arrancar peles” ou cabelo. Podem parecer hábitos estranhos, mas quem o faz refere muitas vezes uma sensação reconfortante ao fazê-lo.

Estes hábitos podem muitas vezes estar associados a outras questões psicológicas/mentais, como a Síndrome de Pica (ou alotriofagia), em que os indivíduos apresentam apetite associado a substâncias não alimentares (como por exemplo: unhas ou cabelo).

Confesso … A grande motivação para partilhar convosco sobre este tema de roer unhas (que até pode parecer um tema muito comum, quase um “cliché”) está associado a este Síndrome. Infelizmente pode acontecer logo desde cedo na vida da criança… E recentemente tenho acompanhado vários casos no consultório com esta condição.

Infelizmente este não é um hábito inócuo. Roer as unhas, principalmente desde cedo, pode originar complicações a longo prazo. Não só na saúde oral, mas também na saúde geral.

E quais são as consequências para a Saúde Oral?

Sei que não é uma novidade… Mas os dentes não devem ser utilizados como ferramentas! (isso significa não usar como corta unhas, tesoura, abre pacotes…)

Roer/morder objetos ou unhas, principalmente se for um hábito frequente e prolongado (ou seja diário e desde muito cedo na vida da criança), origina complicações para a saúde oral. Gostava de vos deixar aqui apenas algumas:

Dente desgastado / com fratura por causa do hábito constante de roer unhas.
  1. Pode fragilizar a estrutura dos dentes, inclusive pode provocar fraturas no dentes. É comum roer sempre com o mesmo dente, de tal forma que por vezes conseguimos identificar facilmente qual é na avaliação oral, porque o dente apresenta caracteristicamente uma alteração na sua forma.
  2. Quando o hábito é muito frequente, os dentes podem mudar a sua posição, podendo originar Má oclusão.
  3. As unhas (e outros objetos) são uma fonte de bactérias e outros organismos que não são bons para a saúde oral. Por isso é comum existirem gengivas inflamadas ou até mesmo infeções surgirem como consequência destes hábitos.
  4. Morder constantemente pode originar microtraumas no dente e provocar reabsorção da raiz do dente, ou seja, o dente vai perdendo a sua raiz gradualmente, até ficar com pouco suporte e começar a ter mobilidade e em casos mais complexos pode mesmo perder-se o dente. Quando acontece em dentes de leite, é comum o dente cair mais cedo do que seria de esperar.
  5. É comum sentir mais sensibilidade associada ao dente que é mais usado para “roer” objetos ou unhas.
  6. Por estarem constantemente a ativar os músculos da mastigação para roer, nos casos em que estes hábitos são mais intensos, pode ocorrer até cansaço muscular que origine dores de cabeça ou até bruxismo (ranger de dentes).

Então como podemos PARAR isto?

É a pergunta desesperada de muitos… imagino que depois de ler estas consequências queiram desesperadamente fazer os vossos filhos parar. Vamos com calma.

Normalmente alguns destes hábitos desaparecem gradualmente ao longo da infância/adolescência. Mas também é comum vermos adultos a roer as unhas ou objetos, por isso vale a pena tentarmos algumas abordagens, com o objetivo de diminuir cada vez mais a probabilidade de chegarem à idade adulta com estes hábitos.

Dicas da Doutora Dentinhos para os Hábitos de Roer unhas e objetos:

  1. Identifiquem quais são as situações gatilho: Situações de stress, medo ou ansiedade podem estar na origem deste hábito. Observem a criança e a situação imediatamente antes de começar a roer algo. De nada nos serve colocar um verniz “daqueles que sabe mal” nas unhas das crianças, quando isso pode ainda aumentar mais o fator de stress e eles necessitarem de roer mais (até podem começar a roer as unhas dos pés ou outros objetos). Por isso, comece por identificar o motivo (mudança de rotinas, situações de stress na escola, testes ou competições desportivas…) e tome medidas para o resolver.
  2. Distrair: Quando reparar que a criança vai começar a roer as unhas ou algum objeto, dê-lhe algo para fazer que a/o distraia disso e mantenha as suas mãos ocupadas. Por exemplo: desenhar, escrever, fazer uma atividade (brincar, ajudar nas tarefas em casa) , brincar com um brinquedo, etc.
  3. Mantenham as unhas cortadas bem curtas: há muitas crianças que confessam que roem as unhas quando começam a sentir que estão mais compridas. E assim não haverá tanto para roer.
  4. Sessão de Manicure: Ir até ao centro de estética e pintar as unhas pode ser uma excelente forma de motivar a criança a não roer as unhas! Deixem-nas escolher os desenhos/brilhantes e a criança sentirá mais motivação de manter as unhas intactas.
  5. Parar Gradualmente: Escolher uma ou duas unhas para parar de roer, por exemplo pode até tapar com uns dedos de luva divertidos. O método do calendário também costuma funcionar muito bem e é um dos que mais uso nas consultas. Funciona assim: sempre que não roi as unhas num dia a criança coloca uma estrela no calendário (tem de ser ela propria a fazê-lo), e ao final do mês se tiver mais dias com estrela do que sem estrela, recebe um presente especial. (Deixo-vos um calendário desses para descarregarem e experimentarem aí em casa!)

É claro que estes métodos podem e devem ser adaptados a cada situação em específico. Conversem com o Odontopediatra sobre este hábito durante a consulta porque deve ficar registado. E muitas vezes nós podemos ajudar a adaptar várias técnicas.

Espero que tenham gostado e que acima de tudo, vos seja útil!

Seguimos juntos, Pelos Sorrisos do Futuro! 🙂

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